terça-feira, 22 de abril de 2008

Não Tem Coisa Certa / Artes Plásticas

Caio Reisewitz revela em paisagens tensões contemporâneas e políticas

A paisagem aparentemente inerte que embute de forma sorrateira em sua beleza natural e pictórica um campo de tensões sociopolíticas é uma das chaves possíveis para se enveredar por entre as 18 imagens de "Não Tem Coisa Certa", mostra fotográfica que Caio Reisewitz, 41, inaugura hoje à noite na galeria Brito Cimino, em São Paulo (já completamente montada, a exposição foi visitada pelo crítico na última quinta-feira). Reisewitz recupera a tradição da representação da paisagem do século 19 para atualizá-la a partir de questões prementes no mundo contemporâneo. Para empreender esse projeto, o artista mescla em suas referências a suntuosidade da forma e da expressão da luz de paisagistas como Marc Ferrez (1843-1923), a fotografia de registro dos alemães como Andreas Gursky e Thomas Struth, além de influências claras dos conceitos do canadense Jeff Wall. Reisewitz representou o Brasil na Bienal de Veneza em 2005, com o grupo Chelpa Ferro. Desde então, tem participado de diversas mostras no exterior com suas obras que chegam a custar R$ 50 mil, sendo adquiridas por importantes coleções públicas e privadas. Parte do sucesso do trabalho de Reisewitz se dá pela forma como o artista consegue equilibrar, em suas composições, o belo com o grotesco, a contemplação fluida e poética com o discurso político e aflito, as aproximações e as dissonâncias históricas entre a fotografia e a pintura. Entre a percepção de um ou de outro desses pólos que convivem em suas imagens, Reisewitz joga com o embotamento da percepção do homem contemporâneo, com a crescente dificuldade em interpretar imagens para além da superfície sedutora para qual a publicidade nos (des)educou. Após essa sedução, deve-se seguir um olhar mais desconfiado em "Não Tem Coisa Certa". Paisagem silenciosa Se num primeiro olhar as imagens nos induzem a antever o idílio, uma leitura mais detida deverá nos conduzir a outras camadas da mesma imagem nas quais está representado o inverso da idéia de um paraíso na terra. Como na emblemática fotografia "Goiânia Golf Clube" (2007), em que a bela composição de contornos irreais, ampliada em 2,40 m, revela em detalhes a grama perfeita, a conjunção harmoniosa entre a terra, a fauna e o céu. Passado o torpor da percepção, assaltada pela beleza imanente da imagem, essa quase irrealidade que a encerra começa a causar algum desconforto. Percebe-se, então, que a paisagem, e não a imagem, é meticulosamente construída a partir de uma ideologia e de uma cultura na qual reverberam os jogos de poder, a ambição e a onipotência humana diante do espaço natural. Ao domar a selva e transformá-la num jardim de artifícios, o homem propõe que a natureza reflita sua imagem e semelhança idealizadas. Sem conflitos, sem mistérios, sem acasos. Nessas paisagens silenciosas, estão segredados embates sociais que determinam os desígnios da paisagem, do homem, do mundo. Sobre tudo aquilo que tende o errático, que não tem coisa certa.

EDER CHIODETTO COLABORAÇÃO PARA A FOLHA


NÃO TEM COISA CERTA - CAIO REISEWITZ Quando: abertura hoje, às 19h; de ter. a sex., das 10h às 19h, e sáb., das 11h às 17h; até 31/5 Onde: galeria Brito Cimino (r. Gomes de Carvalho, 842 / São Paulo - tel.: 3842-0634) Quanto: entrada franca Avaliação: ótimo

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